quinta-feira, 1 de maio de 2014

Fé e Graça

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; (Ef 2:8).

Nunca poderemos identificar a boa notícia da salvação para nossas vidas, sem antes compreendermos a terrível notícia de que todos os homens estão perdidos. É exatamente assim que o apóstolo Paulo inicia sua singela e preciosa epístola aos crentes de Roma. De certa forma, Paulo informa a verdade que assola a humanidade como um todo, e o cuidado de Deus para com seus filhos, os eleitos.

O apóstolo lembra que, por causa do pecado, toda raça humana foi sentenciada à morte e não há um sequer que possa escapar, por suas próprias forças, deste julgamento. Ele chega a dizer, em Romanos, que o homem está destituído da glória de Deus (Rm 3:23). No início do capítulo em que se encontra o texto que citamos, vemos Paulo dizendo algo de natureza semelhante, informando a respeito da morte causada pelo pecado e que por esta condição ninguém estava apto a responder positivamente à graça. Ao contrário, éramos como fantoches nas mãos do príncipe deste mundo, vivendo segundo os desejos da nossa carne (Ef. 2:2,3).

Por isso, podemos compreender que o homem é refém de sua própria concupiscência, e apesar de saber que seus atos se constituem em pecado, sua mente é incapaz de fazê-lo superar suas tendências pecaminosas. O homem se afastou de Deus e tem nutrido essa inimizade com unhas e dentes, sentindo ainda por isso os efeitos dessa queda. Estes efeitos afetaram também a capacitação mental humana que fora fornecida por Deus à sua criação, ao que denominam efeitos noéticos da queda (vem da palavra grega nous - que quer dizer mente).

Um reflexo dessa esclerose pode ser visto no homem "moderno". Durante muito tempo o homem buscou encontrar o sucesso para sua vida, por intermédio da razão. Contudo, sua produção intelectual limitada não pôde proporcionar escape para seus dilemas. O homem não conseguiu concluir e encontrar uma saída e ainda foi levado ao desespero por seus próprios caminhos. É neste tempo que vemos muitos, na verdade, advogarem que a solução para sua vida era acabar com ela – dizendo que isso era o escape de uma vida sem sentido. A constatação da falta de sentido na vida, porém, é o resultado que o próprio Senhor os entregou, pois se tornaram nulos em seus entendimentos, por não reconhecerem que o Ele é Deus – quando a própria criação dá testemunho dessa verdade (Rm 1:18-32).

Mas, a conjunção adversativa que aparece no texto aponta para a seguinte proposição “Deus sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou” (Ef. 2:4), nos mostra o real valor da graça. Pois estando o homem perdido, sentenciado e sem esperança em si mesmo, Deus proporcionou, no descortinar de Sua grande revelação – com a qual o pecado não pôde resistir - a resposta para os dilemas da humanidade. Jesus cristo venceu o pecado, o mundo e a morte. Ele conquistou o direito, na cruz, da realização do restabelecimento da criação de Deus à Sua presença. Implantou nos seus filhos, pelo Espírito Santo, a verdadeira razão – a fé – com um instrumento cognitivo que os mantém cônscios de sua dependência de Deus.

Esta relação alerta-nos sobre a união que foi possibilitada e estabelecida em nós pela vitória de Cristo na cruz do calvário. Ele nos uniu a Ele, de maneira que o que fora dito aos discípulos “para que onde eu estou estejais vós também” (Jo 14:3), pode ser plenamente percebido nas Escrituras. A relação com Cristo foi estabelecida pelo Espírito Santo para que, de maneira ininterrupta, vivêssemos em novidades de vida.

Por essa união, podemos compreender claramente o que significa a informação que Paulo fornece quando diz que “nos fez assentar nas regiões celestiais em Cristo” (Ef. 2:6). Tudo isso tem propósito bem específico e encontra sua resposta na propagação do Evangelho de Cristo para evidência de Sua graça. Por essa revelação da bondade de Deus, que é o próprio Cristo (Ef. 2:7), somos compungidos à vida segundo os Seus mandamentos.

Não há mérito em nós mesmos. Se fomos alcançados por Deus devemos entender que isso se deu por motivo de Sua graça. Infelizmente, é uma pena que muitos não consigam entender isso, porque seus corações ainda estão obscurecidos e não conseguem contemplar a luz. Todavia, é motivo de extrema satisfação para os privilegiados que entendem que “Se não fora o Senhor...” (Sl 124), nada em nossa vida faria sentido. Não saberíamos por que necessitamos ser salvos, ou até mesmo para quê sermos salvos.

As respostas se tornam simples quando nosso raciocínio é vivificado, por meio da fé. Por isso, sermos salvos porque éramos inimigos de Deus e estávamos indo para o inferno, se constitui como um argumento bem plausível e real; bem como, sermos salvos para viver em novidades de vida e apresentar ao mundo que Jesus Cristo é o Senhor e ama o pecador arrependido, parece traduzir um bom sentido e explicação ao motivo de nossa existência.

Concluindo, não poderemos esquecer que o Autor da vida, o Criador do Cosmos, nunca faria nada que não fosse, antes de qualquer coisa, resultado de Seu amor e consequentemente um apontamento e manifestação de Sua Glória e Majestade. Nada é mais importante que Aquele que nos salvou, que deu sentido à nossa vida, que nos amou, quando éramos por natureza filhos da ira. Somos gratos a Deus por nos amar, por nos livrar e por nos fazer entender o que significa a essência de Sua maravilhosa Graça.


Glória a Deus!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Ídolos do Coração

"Escondi a tua Palavra em meu coração para eu não pecar contra ti" (Sl 119:11)

Queridos irmãos,

Passei muito tempo envolvido com uma série de atividades e não pude manter-me frequente nas postagens deste blog. Sinto imenso desejo e prazer em escrever acerca do evangelho de Jesus Cristo, no entanto, estava impossibilitado pelas muitas tarefas que nos envolveram no início deste ano.

Neste período tivemos muitas realizações e a manutenção dos propósitos estabelecidos no ano passado continuam caminhando progressivamente. Poderíamos nos unir ao salmista e declarar com toda certeza que "Grandes coisas fez o Senhor por nós e por isso estamos alegres" (Sl 126:3). É fato que nos alegramos quando compreendemos as grandes coisas que o Senhor tem feito por nós, rotineiramente. No entanto, nem sempre esta compreensão está tão explícita em nossas atitudes.

Já tive a oportunidade de presenciar vários momentos onde cristãos haviam esquecido que Deus havia feito grandes coisas por suas vidas. Na verdade, o distanciamento desta percepção fazia com que houvesse, infelizmente, mais palavras de reivindicações que de gratidão. Com o tempo passei a compreender que isso não se tratava de outra coisa senão, a intrínseca necessidade do homem de glorificar seu ídolo.

Quando passamos da gratidão a reivindicação a Deus, nos perdemos em nossos argumentos frágeis e insustentáveis, passando a não identificar mais a bondade do Senhor. Nos tornamos murmuradores em nossos corações e não há outro lugar que seja o pior habitat da murmuração do que o coração. Pois, é do coração que procedem as fontes de vida (Pv 4:23), por isso o autor inspirado convoca seu filho: "Guarda-o!".

O coração na Bíblia não é apenas o órgão que bombeia sangue por todo o corpo, mas esta palavra se refere ao âmago do homem, ao íntimo de seu ser, aos centro de suas emoções e ações, à nascente de suas atitudes. É ali que está o verdadeiro eu, o verdadeiro você. É ali que o Senhor estabelece o trono naqueles que são seus servos verdadeiros. Foi assim que Ele criou a humanidade - para obediência plena a Sua Palavra. Mas, infelizmente, foi ali que a serpente tocou quando disse a Eva que poderia ser igual a Deus. O desejo de sentar no trono de Deus significou e ainda hoje significa a ruína de todos os homens. Não é sem propósito que a Bíblia afirma que "o SENHOR olha o coração" (I Sm 16:7b) e o homem a aparência apenas.

Deus nos conhece melhor que nós mesmos e sabe se em nosso coração está o desejo de exaltar a Ele sobre todas as coisas em nossas vidas - o que produz como resultado a plena satisfação em toda e qualquer circunstância - ou se assentado no centro de nossas prioridades está o nosso eu. Isso resulta em pecado contra nosso Senhor e não há outro remédio para isso, senão o que o salmista informa. Não é uma mudança repentina de atitudes, um policiamento para não fazer determinadas coisas, mas, apenas a obediência à Palavra é capaz de levar o homem à caminhos de paz.

Se tomarmos a Palavra de Deus como aquela que pode nos ensinar, redarguir, corrigir e instruir em justiça, ela nos apontará que o único caminho para satisfação e gratidão reside em Cristo e é por este caminho que somos retirados da via que nos conduzia a perdição, onde éramos controlados por nossas satisfação em produzir nossas mazelas, e somos trazidos para a Luz. Com a Palavra plantada em nossos corações somos levados à tristeza por nossos pecados, e o arrependimento pelo entendimento da suficiência de nosso Senhor.

Não deixemos nos enganar, pois nosso coração consegue iludir muitas vezes a nós mesmos, porém, façamos como o salmista e guardemos a Palavra de Deus, para que ela regule a nossa conduta e nos aponte para Cristo e sua suficiência para nos livrar do mal e de nós mesmos.

Que o Senhor nos ajude!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Mensagem de Natal a uma Sociedade Pós-Moderna

            Este é um período no qual sempre vivemos um perfeito paradoxo. Buscamos dinheiro somente para satisfazer nosso desejo de comprar. Como diria o humorista George Carlin, “gastamos mais, mas temos menos...compramos mais, mas desfrutamos menos...”. Em um tempo de valorização fútil, onde você é o que você pode comprar, as pessoas gostam de exibir a beleza pela janela de sua casa, mas desejam esconder a tristeza em que fica sua despensa nos meses subsequentes.
            Não há nada tão resplandecente e tão solucionador para a humanidade do que o símbolo do Natal. No entanto, seu significado tem sido constantemente associado a um velhinho de barba branca, com uma barriga sobressalente e sua sacola de brinquedos. Não é incomum ver crianças se alegrando nesta época, pois está chegando a hora do “bom velhinho” se lembrar delas. É fácil entender o que significa o Natal para essas pessoas. O que não é fácil é conceber como algo que simboliza o grande amor de Deus pode ser tão naturalmente esquecido.
            Este texto simboliza um esforço de fazer-nos compreender o real significado do Natal para nós. Recomendo também, uma pregação do Dr. John MacArthur que fala sobre o mesmo assunto[1]. Nesta pregação, realiza um contraste teológico entre o que é Natal para nossa sociedade e o que realmente significa Natal, de acordo com as informações de Paulo em sua epístola aos Filipenses.
            Pretendo me utilizar deste mesmo capítulo e fazer algumas análises no mesmo trecho (Fp 2:5-11), e ratifico que este trecho resume apropriadamente tudo o que precisamos saber sobre o real significado do Natal. O Natal é para nós o que significa a pessoa de Cristo para a humanidade, consequentemente o que a Bíblia nos informa que isso significa como ápice da revelação de Deus à humanidade.
            Antes, porém, precisamos refletir sobre alguns aspectos que norteiam nossa sociedade. Vivemos em um período onde a pós-modernidade determina que o ser mais importante da face da terra é aquele que você contempla ao olhar pelo espelho. Todos os esforços que são empenhados nos dias atuais se dão para que não haja mais nada que seja caracteristicamente errado de nossa parte. A tentativa de fazer ídolos, no entanto, remonta os primórdios da sociedade e principalmente, o homem em sua obstinada vontade de cultuar a si próprio.
            Não é por acaso que encontramos as bilheterias lotadas quando se vislumbra a história de um novo herói. Afinal, todos se identificam com o herói, acreditando que os intentos do coração através de atos simples ou até mesmo heroicos podem redimir toda uma sociedade. Isso leva-os a preconizar uma mensagem que não deixam ser perdida ou esquecida, como aquela que é passada no filme-desenho Rise of the Guardians (A origens dos Guardiões). Os heróis precisam ser acreditados, pois quando deixam de crer na realidade dos sonhos destes heróis só lhes resta o medo.
            Coincidentemente, uma das figuras centrais deste filme e que convoca todo o grupo para o combate ao “Bicho Papão”, que tenta sobrepujar os heróis infantis à descrença, é o “Papai Noel”. A convocação invoca também Jack Frost – que se tornou herói por se sacrificar por sua irmãzinha, mas por seu compromisso consigo mesmo e suas brincadeiras, é alvo de descrédito tanto dos heróis quanto das crianças, e por isso elas não o veem.
O filme conta de como um herói desacreditado pelas pessoas é conduzido, de desprezado, a ser o principal nesta guerra contra “as forças do mal”. O momento de conflito ao personagem principal (Jack Frost) é quando ele é confrontado com sua própria razão de ser. Pois, já que não era adorado pelas crianças por não acreditarem nele, poderia pelo menos sentir-se real se fosse temido se unindo ao “Bicho Papão”. Sua opção em manter-se fiel aos princípios “divinos” que o levaram até aquela condição de imortal, o fizeram batalhar pelos heróis que estavam perdendo sua natureza por estarem chegando a condição de desacreditados assim como ele.
Interessantemente, o filme mostra nas entrelinhas que a motivação destes heróis era, em ultima instância, alegrar as crianças principalmente para que o crer delas os mantivessem vivos. Impossível não associar o filme ao existencialismo, onde a crença associada às ações de alguém determina o sentido de uma vida aparentemente sem explicação, como era o caso do jovem Jack Frost.
            Apesar de ser um desenho, crianças e adultos do mundo inteiro já tiveram pelo menos contato com sua mensagem. E como disse Godawa em seu livro “Cinema e Fé Cristã”, seria muita ignorância da parte dos que chama de “glutões da cultura”, acreditar que não há nenhum sentido por trás da história de um filme. Na verdade “todos eles retratam uma forma de redenção na visão de mundo que possuem”. Neste caso pode ser bem simples como, “a felicidade de uma criança depende dela mesma, basta acreditar” ou “Já temos os heróis que precisamos para sermos salvos do medo”.
            Pensando nisso, vemos uma geração de filhos sendo criados sobre perspectivas ilusórias de redenção, a despeito da verdadeira necessidade da humanidade. As histórias movimentam nossa sociedade desde que o homem é homem. É desta forma que gerações foram alcançadas e suas visões de mundo foram transmitidas a outros. Ignorá-las é, na verdade, deixar de perceber que isso faz parte da natureza humana. O mundo é composto por histórias. O próprio Deus utiliza a história para redigir a Sua própria, revelando-Se a humanidade.
            Somos tão propensos a nos envolver com uma boa história, principalmente, com aquelas que são baseadas em fatos reais, que podemos perder horas debruçados nelas. No entanto, o fato de não lermos as histórias com a visão de mundo que completa, responde e dá sentido à nossa existência, nos distancia da compreensão da verdadeira história da humanidade.
            Apenas o cristianismo responde e atende plenamente a demanda de nossos porquês. E isso não é um sistema de crenças diante de uma maioria dominantemente cristã. O escritor inspirado, apóstolo Paulo, escrevendo aos Romanos, retrata o estado da humanidade, fornecendo perfeitamente o que a levou a tal estado deplorável:

Pois do céu é revelada a ira de Deus contra toda a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça. Porquanto, o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis; porquanto, tendo conhecido a Deus, contudo não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas suas especulações se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se estultos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. Por isso Deus os entregou, nas concupiscências de seus corações, à imundícia, para serem os seus corpos desonrados entre si; (Rm1:18-24).

            Todas as tentativas humanas de buscar sentido em si mesmo, independente de Deus, revelam o principal obstáculo dos homens à compreensão satisfatória de sua identidade. Pois, é uma constatação inevitável, a identificação de um ser ordenado e organizado por trás de toda criação. Este conhecimento foi algo implementado no homem, como criatura de Deus, pelo próprio Deus. O não reconhecimento do que os americanos chamam creatureliness (condição de criatura), e da clara associação ao entendimento da dependência de Seu Criador é, segundo o apóstolo Paulo, o que leva a humanidade ao estado em que se encontram.
            Por isso, o retrato de uma sociedade que busca com empenho substituir o que realmente é divino por correspondentes humanos, não se trata de uma tentativa inocente de alegrar algumas crianças, mas é descrita nas Sagradas Escrituras como uma rejeição à estrutura naturalmente estabelecida por Deus para o homem. Todos, fomos gerados à imago Dei e resplandecemos essa essência. Não poderemos alterar nossa essência por mais que tentemos, antes apenas, conseguimos nos distanciar cada vez mais de chegarmos ao conhecimento do que realmente nos faz sentido.
            No texto de Filipenses 2:5-11, lemos sobre a essência do Natal, na pessoa de Jesus Cristo. Pois, em seus valores fundamentais, o natal simboliza a alegria do nascimento do Filho de Deus, cuja vida, morte e ressurreição, possibilitou à humanidade a restauração da comunhão com Deus, que havia sido afetada pelo pecado, desde Adão. O sacrifício vicário de Jesus Cristo, o Seu único Filho, foi o único elemento capaz de aplacar a ira de Deus.
            Contudo, a descrição realizada em Fp 2:5-11 demonstra o que isso significou para o próprio Filho de Deus. Como disse, o Natal é para nós o que Ele significa para nosso Senhor. E a isso, devemos nos assemelhar, desta forma que devemos viver. Por este motivo, o apóstolo Paulo começa falando aos da igreja de Filipos que estivessem atentos ao modo de vida que o conhecimento desta realidade deveria lhes conduzir.Tendes o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus...”.
            A partir daí, é descrita a realidade humilhante a qual o Filho de Deus se submeteu voluntariamente. Jesus Cristo declara a si mesmo, na oração do cenáculo, que havia se santificado, identificando não alguém que necessitasse ser purificado, mas aquele que devotara sua vida para o exercício da vontade de Deus, seguindo até a morte. Por isso, “sendo em forma de Deus, não considerou ser igual a Deus; antes tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens (...) humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz”.
            O Natal simboliza a intervenção do próprio Deus na história de Seu povo. Deus, por intermédio de Cristo Jesus, realizou Sua vontade para a humanidade, fornecendo-lhes a oportunidade de serem redimidos. Mas, seria incompleto de nossa parte dizer que a vida, morte, ressurreição e ascensão de Cristo se resumem em fornecer-nos a salvação. O propósito maior se volta para a exaltação do nome do Senhor Jesus.  Não podemos atribuir outro significado à intervenção de nosso Deus na história fora do que é descrito nas próprias páginas de Sua revelação.
            A continuidade do texto nos faz perceber a verdade significativa. “Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai”. A vinda de Cristo não traz outro propósito senão a exaltação do Seu próprio nome, para que por intermédio Dele a vida eterna fosse fornecida.
            O Natal é mais do que a lembrança de uma época de comprar e dar presentes. É mais do que a apresentação falsa de um velhinho que possa realizar sonhos de crianças carentes. É, na verdade, a oportunidade de fornecer aos carentes o perfeito significado desta data. Que Jesus Cristo, nasceu, viveu, morreu, ressuscitou e ascendeu aos céus para que Seu nome fosse exaltado acima de todos os nomes, em todo o cosmos, sendo suficientemente apto ao fornecimento da vida e restauração da comunhão da criação com Seu Criador.
            Isso tem valor completo e realiza o verdadeiro sonho “inconsciente” de uma humanidade que estava em total inimizade para com Deus, trazendo-a de volta ao seio desta comunhão projetada desde antes da fundação do mundo. Esta é a mensagem de natal para os nossos dias. Esta é a dádiva que precisa ser constantemente refletida, pois é a única que soluciona o dilema de uma geração desorientada em suas tentativas autônomas de se redimirem por suas próprias forças.
            O cristianismo responde plena e cabalmente os porquês íntimos do homem, chegando ao âmago do problema, o coração. Convocando-o ao correto posicionamento do centro de Sua adoração, direcionados exclusivamente a Deus, por Cristo. Quando levados a essa realidade, a satisfação deixa de ser ilusória e a união com o próprio Deus estabelece o ápice daquilo o que pode se desejar, na representação do que sequer poderia ser imaginado. Por isso, sabiamente, refletiu o apóstolo; As coisas que olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem penetraram o coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam”.
           O Natal é a celebração do amor de Deus, que por intermédio Seu Filho restaura a Sua criação, para Sua própria glória.




[1] http://www.youtube.com/watch?v=y3OfaIoueJY&hd=1

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A Busca de Nossa Satisfação

A convivência com as pessoas é sempre um misto de desafios e pensamentos. Acredito que ninguém é sequer semelhante ao outro, em sua estrutura física ou em suas ideias. Ainda que intimamente próximos, temos convicções completamente distintas daqueles que nos cercam, o que ratifica o verdadeiro desafio de conviver com outras pessoas. Percebo isso até mesmo em meus filhinhos, que fizeram 8 anos em julho deste ano (2013). Eles são gêmeos e nasceram da mesma placenta. A diferença entre os dois, no entanto, é notória. Inclusive na escolha do time do coração: um Flamengo e outro Vasco. Bem, poderemos falar disso em outra ocasião...
Minha fala, entretanto, aponta que, não obstante, percebamos aquilo o que nos diferencia da sociedade, temos, porém, uma baita de uma semelhança. Algo com o qual nem tentamos lutar. Ao contrário, nos dias atuais, as pessoas parecem nutrir essa equidade chamada busca pela satisfação própria. Quando digo isso, me refiro às convicções que produzem satisfação ao nosso ego. Esta é uma palavra grega que significa o pronome pessoal, eu. Felizmente, não há nenhuma novidade ou demérito em alguém que procura lograr êxito em suas realizações. Todos, buscamos e queremos nos sentir realizados. Sentir que somos importantes, e que algum dia quando morrermos alguém sofrerá nossa falta, por amor a nós. O que há de errado nisso?
 Na verdade, isso também aponta para a semelhança estrutural do ser humano. Como criaturas de Deus, fomos feitos para amar e sermos amados. Nosso amor primordialmente nos foi comunicado para ser exercido de maneira absoluta a Deus, e sendo refletido também em nossos semelhantes. Por isso, Jesus, sintetiza a lei em dois grandes mandamentos “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento; e [o outro semelhante a este,] amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mt. 22:37,38; Mc 12:30,31; Lc 10:27,28). Contudo, como bem sabemos, no evento denominado “a Queda”, o ser humano se desviou do padrão elementar de Deus para ele.
O coração, que é chamado pela Bíblia lugar de onde “procedem as fontes de vida” (Pv 4:23), foi diretamente atacado pela sedição de ser igual a Deus (Gn 3). Chamamos isso, a origem de todos os pecados. O amor que deveria ser “absolutizado” em Deus, agora é destinado ao próprio homem. Não conhecemos bem como era o homem em suas tendências pré-queda, mas este segundo é bem familiar. É possível ver, no decorrer da história, como os homens se tornaram peritos na busca pela satisfação própria, se unindo a outros, apenas, quando isso lhes traria algum benefício. Tudo o que se buscava, apontava para suas “razões” ou suas “verdades”.
Por certo, esta atitude encontra seu fundamento neste evento (Queda). Após isto, não é mais possível ao homem retornar ao estado original sozinho. É impossível para ele sair deste dilema, até que a graça redentora de Cristo Jesus o alcance, regenerando-o pelo Espírito, restaurando a ele a possibilidade do empenho de seu amor a Deus novamente. Todavia, ainda sim há uma luta interna no homem contra aquilo o que chamamos carne. Ele ainda briga com seu “ídolo maior”.
O professor Ms. Fabiano de Almeida Oliveira, disse em uma de nossas aulas: “Após a queda, o maior ídolo do homem é ele mesmo. Ainda que pequenos ídolos surjam como, estabilidade financeira, estética, sustentabilidade, todos se relacionam com o principal deles, o eu”. O problema é que quando “absolutizamos” o nosso eu, colocando-o em primeiro lugar, quem quer que se oponha a isso, se torna alvo de deflagração de nossa ira, ainda que isso nos custe caro. Um exemplo disso são os chamados kamikases, que entregavam suas próprias vidas em defesa de sua nação. Aparentemente, uma causa nobre, mas o conhecimento intrínseco que revela a identificação da superioridade objetivada pela nação japonesa, revela seu ídolo maior, o eu.
O mais interessante é que no cerne de tudo isso, estava o bendito do conhecimento. Devemos lembrar que a mulher desejara ser como Deus, e cuidadosamente após isso, lemos, “conhecendo o bem e o mal” (Gn 3:5b). A história também mostra, principalmente após os pensadores filosóficos, como o conhecimento (“absolutizado” pela razão) efetivou a parceria definitiva com o homem, neste processo de auto-idolatria. E isso, de maneira bem sutil, vem se tornando o maior dos problemas de nossa sociedade. Mesmo entre os cristãos, podemos ver traços fatais desta realidade.
Não é difícil ver pessoas que não olham o ensino da Palavra, que aponta para Cristo, como única fonte de libertação para nossas mazelas. Estão sempre procurando caminhos que lhes tragam satisfação própria, pessoal. Querendo ser oportunizadas, como dotadas do chamado de Deus, e denominando-se “impedidas” por homens. Na verdade, o desejo é o mesmo do velho homem: “quero que as pessoas saibam que eu também sou”. Não deveríamos esquecer que se o Senhor nos chamou, ele o fez exclusivamente para um motivo, sermos para louvor da glória da sua graça (Ef 1:6).
Se o motivo de nossas preocupações é demonstrar ao mundo que somos chamados por Deus, por que não o fazemos nas ruas? Por que não visitamos os doentes? Certamente, há bastante deles que estão aguardando uma Palavra de Deus para suas vidas. Mas, parece que isso não é tão agradável. A quem? Ao eu! Ele deseja ser visto, ser suprido idolatricamente. Constatar isso pode não ser fácil. Pois, é possível tecer textos em redes sociais que agridem as pessoas que são apenas reflexões públicas caracterizadas como liberdade de expressão. Mas, quando trocamos nossa visão de mundo para uma cosmovisão tipicamente Bíblica, percebemos que esta era, na verdade, mais uma necessidade egoística de satisfação própria.
Devemos muito cuidar para que, uma vez regenerados pelo Espírito, prossigamos em nos esvaziar do velho homem (Ef. 4:22). Se nossa satisfação, mesmo sendo chamados cristãos, ainda se torna plena à base de elogios, exibições, adeptos à nossa causa (humanística), é fato que estamos amando nós mesmos no lugar onde deveria estar nosso Criador.
Paulo afirma do propósito de Deus ter nos resgatado em Cristo, quando diz aos efésios:
Para o louvor da glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado; em quem temos a redenção pelo seu sangue, a redenção dos nossos delitos, segundo as riquezas da sua graça, que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência, fazendo-nos conhecer o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que nele propôs para a dispensação da plenitude dos tempos, de fazer convergir em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra,” (Ef. 1:6-10).
Essa dádiva claramente indica a ausência de mérito humano, mas uma realização proposicional de Deus bem definida. Toda sabedoria e prudência que recebemos, é oriunda de Deus, e somente por Cristo podemos conhecer Sua vontade. Deus se manifestou na história para proporcionar a libertação ao homem. Fazendo com que ele finalmente entenda de onde provém o suprimento de suas necessidades.
A satisfação plena do homem não é atingida pelos seus desejos egoístas, sua saciedade só se dá quando vive de acordo com sua estrutura original, que aponta para a adoração a Deus sobre todas as coisas, de maneira absoluta. Esse conhecimento faz o homem, de uma vez por todas, identificar a si mesmo. Foi assim que os homens citados na Bíblia se tornaram referenciais a serem seguidos.
Os homens que realmente tiveram experiências de íntimo conhecimento de Deus puderam também conhecer a si mesmos. Por isso Jó disse, “Pelo que me abomino, e me arrependo no pó e cinza...” (Jó 42:6); o salmista declarou: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas a teu nome dá glória...” (Sl 115:1); Isaías proferiu: “Ai de mim, pois estou perdido...”(Is 6:5); Jeremias ratificou: “Ai de nós, porque pecamos...” (Lm 5:16); Esdras enfatizou: “Ó meu Deus! Estou confuso e envergonhado, para levantar meu rosto a ti, meu Deus;” (Ed 9:6).
Desta feita, podemos analisar que se vivermos desta maneira perceberemos que não estamos em um processo de aquisição de títulos de quem é superior aos outros, ao contrário, constataremos que o sucesso de nossa busca se dá naquilo que nos conduz à percepção de que devemos ser reconhecidos apenas como servos. Pois, o Soberano, Absoluto e Superior, a Bíblia já tem nos apresentado quem é. A ele devemos buscar em primeiro lugar.
Assim, temo que alguns cristãos nos dias atuais, estejam se equivocando, não percebendo a essência de algumas ações:
Por exemplo, se algum dia pensarmos que o lugar onde estamos já não é mais suficiente para nós, seria ideal analisar se nossa saída não está sendo motivada por um desejo egoísta de sermos reconhecidos como supostamente não fomos, onde estávamos. Isso pode ser comprovado em um simples sentimento, traduzido em uma "liberdade de expressão". Sendo líderes e chegamos à conclusão que falta espaço para nossas pregações ou ensinamentos, por isso saímos; sendo membros e saímos porque o pastor parece ter me “destratado” – não fazendo aquilo que gostaria que fosse feito; ou ainda, se busco um lugar onde “(a) o irm(ã)o fulan(a)o não está...” Quais seriam as justificativas destas motivações???
Existem cristãos hoje que parecem ser experimentadores de denominações, pois já podem recomendar quase todas, por seu vasto conhecimento empírico delas. Acho que esquecem que Jesus tem uma só igreja e é a Igreja do Deus Vivo, a coluna e baluarte da Verdade (I Tm 3:15). Nossa preocupação deve ser atender as palavras de Deus, que declara: “Em todo tempo estejam alvas as tuas vestes...” (Ec 9:8); Também o que mais uma vez mencionamos, provérbios 4:23, "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida".
Nossos pecados não estão escondidos de Deus, se é que pensamos isso. Entretanto, Ele está sempre pronto a perdoar um pecador arrependido, pois um coração quebrantado e contrito, o Senhor não rejeitará, disse Davi (Sl 51:17). Aí descobriremos, cabalmente, que nossa satisfação plena consiste na vontade de nosso Senhor. E estaremos aptos a aprender Dele o que temos que aprender. Cuidemos para que nosso status de crente não seja manchado pelo prazer secularizado, travestido na busca de um espaço, que na verdade só revela a necessidade da satisfação de nós mesmos, da nossa razão, do nosso eu.


Que o Senhor tenha misericórdia de nós!

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Por que Deus permite o sofrimento?

Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou”. (Jó 1:20)

Quando o sofrimento bate a nossa porta, naturalmente, perguntamos: O que fiz para merecer isso? Por que isso está acontecendo? E sem obter nenhuma resposta, a conclusão sempre resulta em um sentimento de que estamos sendo injustiçados. Os ateus se utilizam deste argumento para encostar os crentes na parede (não me refiro a evangélicos) dizendo, se existe um Deus por aí, onde ele está quando estamos passando por situações de sofrimento intenso?

O Dr. Donald Carson inicia uma de suas palestras (How Could a Good God allow suffering?[1]) dizendo, “Se você viver tempo suficiente, você irá sofrer... A única coisa que poderá impedir você de sofrer é não viver o suficiente”. O exegeta expõe que esta é uma realidade que não é somente questionada ou enfrentada pelos que se chamam cristãos, mas por todos os seres humanos. Ele declara que não é possível produzir resposta satisfatória para o motivo do sofrimento. Mas, apresenta aspectos que nos remetem ao controle do Deus Todo-Poderoso e a implantação de Sua pedagogia nos seres humanos. Alguns se beneficiam quando têm conhecimento, outros, simplesmente não conseguem alcançar.

A história de Jó sempre nos remete a questionamentos desta natureza. O sofrimento dele parece algo inexplicável, algumas vezes entendido como um desafio entre Deus e Satanás. Não obstante, ter sido o próprio Deus, a fazer referência à postura íntegra de Jó: “Observaste o meu servo Jó?”. O questionamento realizado por Satanás, segundo o Dr. Daniel Santos, é algo semelhante a “Porventura teme Jó a Deus em troco de nada?”. Se analisássemos somente o primeiro capítulo, diríamos, essa parece ter sido a razão para que Deus permitisse a efetivação das tragédias na vida de Jó. No entanto, quando lemos todo o conteúdo do livro, um propósito maior está implícito.

Jó não foi capaz de compreender porque tudo aquilo havia acontecido em sua vida. E o texto demonstra que não era isso que ele deveria buscar, quando com uma boa seção de perguntas, Deus lhe mostra que Suas ações não demandavam explicações aos seres criados por Ele. Dentre os grandes aspectos pedagógicos do livro de Jó, poderíamos encontrar algo pertinente aos seus primeiros leitores, se entendessem que nem todo sofrimento é decorrente de uma atitude pecaminosa consequencial. Por isso, alguns trechos do livro são por demais delicados.

No capítulo 5, um amigo de Jó (Elifaz), apresenta a ele sua teologia, dizendo, em outras palavras, que Jó deveria aceitar aquela “correção” de Deus, indicando que provavelmente havia algo em oculto que somente Jó e Deus sabiam. Assim, estava recebendo a devida punição por isso. Jó então declara que Deus teria todo o direito de fazer de sua vida o que quisesse, mas em suas afirmações, enfoca também que o próprio Deus era testemunha de sua integridade. A consciência do controle de Deus era plena na vida de Jó, no entanto, as palavras de seu amigo não eram adequadas. Muito embora, em primeira instância, todos os homens herdaram a natureza pecaminosa de Adão. Mas, o que está implícito aqui é a consequência imediata de algum pecado.

Não poderemos identificar a grandeza da atitude de Jó, nem atrair para nós seu ensino, se não visualizarmos o quão foi doloroso para ele ter que passar por tudo o que passou. Neste ponto, já parece evidente que não obteremos resposta satisfatória para o questionamento levantado no título desta postagem. Contudo, os ensinamentos contidos neste pequeno versículo servem-nos de consolo e também fornecem a fonte da esperança e subsistência de Jó. Pois, é notório que, pela atitude de Jó, este foi o pior episódio com o qual fora confrontado em toda sua vida. Somente alguém que não se atenta aos detalhes do texto, poderia dizer que para Jó foi tranquilo ouvir, em um só dia, a tragédia de suas perdas.

Algo tão doloroso para ele havia sido aquele episódio. Ao passo que ele se levanta, rasga suas vestes, raspa sua cabeça, indicando sua condição emotiva face ao ocorrido. Essas ações indicam tristeza profunda, angústia, humilhação e luto. Não há possibilidade de que esse fato não tenha sido profundamente doloroso, tornando um pouco mais fácil a atitude de adoração de Jó. Ao contrário, pelas circunstâncias envolvidas, todas as áreas da vida de Jó, foram profundamente afetadas.

A justificativa para a atitude de Jó, porém, é esclarecida em suas próprias palavras. No verso subsequente, lemos: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; Yahweh deu e Yahweh tirou; bendito seja o nome de Yahweh.” (v.21). Jó tinha a consciência de que tudo quanto possuía havia sido dado por Deus, consequentemente, entendia que o mesmo que deu, sem que ele sequer merecesse tamanha dádiva, poderia tirar quando e como bem desejasse.

Ontem, conversava com meus alunos do 3º e 5º período do curso de Bacharel em Teologia no STO, e trouxe a eles este texto para nossa reflexão. Dentre nossas observações, notamos que este homem possuía um senso de que havia recebido muito mais do que merecia. O           que nos levou a uma clara constatação acerca de sua integridade. No texto, duas percepções são evidentes: a integridade de Jó e sua confiança em Deus. Apesar de alguns dicotomizarem os assuntos, creio que ambos estão intimamente ligados neste trecho. De maneira que a integridade de Jó é notável por sua própria confiança e certeza de que sobre a mão de Yahweh está o controle de todas as coisas.

O texto parece indicar que Jó recebe referências do próprio Deus sobre sua integridade e atitudes corretas para com Yahweh, porque ele tinha consciência da soberana mão de seu Senhor para direcionar a vida de seus súditos. Parece ser isso que leva o autor à fatídica conclusão: “Em tudo isso não pecou Jó, nem atribuiu a Deus falta alguma” (v.22). Quando seria natural do ser humano questionar: Por que eu? Por que isso está acontecendo comigo? O que eu fiz para merecer isso?

Repetimos que Jó, nem ao final do livro, compreendeu claramente por que as coisas que aconteceram em sua vida se sucederam desta forma. Todavia, o grande ensinamento que o livro de Jó parece traduzir, ao próprio personagem, é que tudo aquilo o que era crido por Jó, pôde ser experimentado para produzir verdade à sua própria fé. Deus proporcionou a Jó um meio de que sua fé fosse provada e aprovada para ratificação de sua condição de conscientemente dependente de Deus.

As tragédias enfrentadas por Jó o levaram à condição de alguém que tem a certeza de onde está firmada a sua fé. Bem, como efetivaram sua dependência do Deus Yahweh, em todos os aspectos de sua vida. Isso o levou ao grau de ser referenciado como bem-aventurado e ter sua paciência citada como um exemplo de que Deus pode agir com misericórdia e compaixão para com os seus (Tg 5:11).

Seria pertinente compreendermos que Deus tem um plano até mesmo em nosso sofrimento. As diversas etapas com as quais somos confrontados, se possuem relação de ratificação da nossa fé, são como o apóstolo Paulo declara, produtores de um “eterno peso de glória” (II Co 4:17). Jó obteve bom proveito de suas provações, chegando à conclusão que isto lhe proporcionou um conhecimento visual de Seu Senhor, “mas agora, te vêem os meus olhos” (Jó 42:5). A referência é claramente a um conhecimento mais preciso do poder que Seu Deus possuía para comandar os estágios de sua vida.

Perdemos tempo questionando por que Deus faz isso, ou permite aquilo, quando poderíamos buscar: O que Deus quer me ensinar com isso, ou com aquilo que Ele fez ou permitiu acontecer. Quem sabe, não chegaríamos ao estágio a que Jó foi levado, em uma profunda humilhação que lhe proporcionou finalmente o conhecimento de si mesmo.

Talvez este seja o grande intento de Deus, na deliberação das dificuldades que se apresentam em nossas vidas. Deus deseja que conheçamos quem Ele realmente é (Soberano), e consequentemente, quem nós somos. Ao que Jó declara: “Pelo que me abomino, e me arrependo no pó e na cinza”. (Jó 42:6).

Que o Senhor nos ajude!




[1] Vídeo disponível no Youtube. http://www.youtube.com/watch?v=U21MquBWfag

sábado, 31 de agosto de 2013

O que estamos fazendo?

Existem atitudes que deveriam nos remeter a pergunta supracitada: O que estamos fazendo? Um grande exemplo disso estaria ligado ao momento em que adoramos ou louvamos a nosso Deus. Lembremo-nos que o culto é, antes de tudo, a Deus. É a Ele que rendemos toda nossa gratidão, expressão de louvor, em adoração. No entanto, estas coisas parecem não estar tão claras em nossa prática. Um exemplo disso é exibido brevemente abaixo.

Gostamos tanto de entoar louvores que expressam acerca da soberania de Deus: "Nosso Deus...é Soberano. Ele reina antes da fundação do mundo...". No entanto, será que compreendemos o que significa cantar isso? Estamos dispostos ao verdadeiro aprendizado do que representa o Deus que tudo governa? Qual seria o Seu limite? Ou será que o servimos apenas lhe colocando algumas algemas, que regulam suas ações ao nosso senso racional? Parece que não sabemos tanto ou nada sobre esse Deus mesmo...temos apenas noções. Noções de que Ele é Amor, o Perdão, a Vida, o Caminho...e outras coisas boas... Contudo, e quando os textos das Sagradas Escrituras nos mostram Sua severidade quanto aos réprobos, qual é a nossa avaliação? Seria esse o Deus que almejamos? O Deus que servimos?

Mas, espera aí! Deus é quem tem que ser como nós almejamos ou nós devemos ser como Ele deseja? Quem é o Soberano? Acredito que os cristãos contemporâneos tem confundido as coisas. Pensam em Deus como um amuleto, mas não com a real implicação do que significa dizer que Ele é o Senhor. Para aqueles que poderiam ficar pasmados com a exposição plena do cristianismo, aos Romanos, devemos deixar com que o autor inspirado fale:
 
Diz o apóstolo Paulo: 
"Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?
Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?
E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição;
Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou." (Rm 9:20-23)

Será que cantamos a verdade em nossos lábios ao dizermos..."Nosso Deus...é Soberano...". O que estamos fazendo? Acredito que nossa limitação não pode nos impedir de orar segundo a nossa real necessidade. Senhor! Carecemos de ti! Somos totalmente dependentes! Faz-nos entender os Seus mistérios...se esta for a Sua vontade...

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Crescendo em Santidade

A santificação consiste na renúncia de nossa vontade em relação a vontade de Deus e em relação a dos homens (próximo), pois sua evidência está no exercício das boas obras, que são expressas nos mandamentos do Senhor (Amarás a Deus...e Amarás ao teu próximo...). Podemos, com isso identificar bons critérios para verificação de nosso avanço como servos (embora a palavra original remeta-nos a ideia de escravos - douloi tou Christou) de Cristo.

O quanto estamos dispostos a abrir mão para exercício de Sua boa vontade? Queremos nos apresentar como santos diante de Deus e isso é de fato uma ordem (Rm 12), mas será que nos disponibilizamos a amar a Ele acima de toda e qualquer coisa em nossa vida? E com relação aos nossos irmãos, ou melhor diria, nosso próximo?

Jesus demonstrou bem quem é o nosso próximo e não são aqueles que podem nos trazer algum benefício, mas sim, aqueles que estão dispostos a ouvir a voz do Senhor (Lc 15 - nessa parábola...publicanos e pecadores). Aqueles que estão necessitados ainda que sejam desconhecidos (Lc 10:25-37 - nessa, um judeu é cuidado por um samaritano). Devemos amar de maneira incondicional essas pessoas, levando-as ao encontro com o Evangelho Puro e Simples. Evangelho que apresenta Jesus Cristo como substituto pelos pecados de todo aquele que crê, para fornecer-lhes a vida eterna.

Entender que ninguém chegará ao céu desprovido de santidade é compreender as Palavras do autor aos Hebreus “Segui a paz com todos e a Santificação, sem a qual ninguem verá o Senhor” (Hb 12:14). Palavras que também foram utilizadas por homens de Deus, em nosso tempo, como as do Bispo inglês J.C.Ryle em seu livro Holiness (Santidade):

"Apelo solenemente a todos quantos lêem essas páginas: como poderemos nos sentir felizes e à vontade no céu, se morrermos destituídos de santidade? A morte não opera automaticamente alguma transformação. O sepulcro não impõe qualquer alteração. Cada indivíduo haverá de ressuscitar com o mesmo caráter com que deu seu último suspiro. Onde será o nosso lugar, se vivermos hoje estranhos à santidade?"

Se somos verdadeiros cristãos, é tempo de abandonar uma vida que não esteja em conformidade com a Palavra de Deus, renunciarmos o nosso eu e dedicarmo-nos ao exercício da vontade soberana de nosso Senhor. Esta, que foi expressa em sua preciosa mensagem consiste em “que amemos uns aos outros” (1 Jo 3:11). Abandonando toda inveja, todo orgulho e revestindo-nos de humildade no temor de Deus (Ef 5:21).