segunda-feira, 9 de abril de 2018

João e os Sinóticos


           Depois de concluir meu curso, tenho um desejo ardente de fornecer um pouco do resultado de minhas pesquisas. O propósito é fornecer certa contribuição para os amantes de Teologia. Como minha área de formação é neotestamentária, procurarei apresentar alguns resumos dos principais temas que englobam os estudos neotestamentários. Não serão dispostos necessariamente em ordem. Informo também que são frutos de um módulo onde tivemos que pesquisar em pouco tempo muito conteúdo para realização ou apontamento de diversos papers. Ainda não defini a frequência com que isso ocorrerá, mas segue o primeiro - falando sobre João e os Sinópticos! Boa leitura!
           Há um questionamento sobre a motivação de quatro Evangelhos, se todos tratam da mesma pessoa. Arthur W Pink, pontuou no prefácio de seu livro “Why four Gospels?” que as especificidades dos Evangelhos revelam, por seu conteúdo, a excelência do Filho de Deus, de maneira que se tem a visão acertada a respeito de Jesus, visto por ângulos diferentes. No atendimento das demandas necessárias para as comunidades destino, os autores apresentaram a verdade acerca do Mestre, tendo em vista os ensinamentos que pretendiam fornecer. É possível perceber que mesmo entre os sinóticos, os aspectos intencionais do autor se destacam como diferencial, nas abordagens realizadas.

            O quarto Evangelho, no entanto, a partir do avanço do método histórico-crítico, tem recebido inúmeras críticas quanto à originalidade de seu conteúdo. Naturalmente, embora essa crítica seja desempenhada também aos outros Evangelhos[1], o quarto Evangelho é sem dúvidas o maior alvo, por suas características que o diferenciam dos sinópticos.

Estas diferenças, contudo, não deveriam ser identificadas como elementos que inviabilizam a autenticidade dos escritos joaninos. Até porque seu conteúdo foi ao longo dos anos atestado por inúmeras testemunhas. Na verdade, as diferenças entre os evangelhos sinóticos e João podem ser identificadas por se tratarem de conteúdos, como indicado anteriormente, que atendem demandas específicas, mas também em períodos específicos[2].

É crido e atestado que João é o último dos Evangelhos. Estudiosos remetem-no ao final do I Séc. da Era Cristã, entre 80-90[3]. E por assim ser, é bem provável que o apóstolo João tenha tido contato com os sinóticos, mas intencionalmente trouxe informações que não haviam ainda sido referidas, optando “por escrever seu próprio livro” [4]. A análise das características distintivas de João podem apresentar de maneira mais criteriosa os propósitos autorais.

Os longos discursos do Mestre (Caps. 6, 8,10; 14-16), discussões e debates (5,8,10,12); uma ênfase interessante na utilização da expressão eu sou – fazendo clara referência ao emprego utilizado por Deus no AT (8:58); os diálogos eficazes que proporcionam a crença em Jesus Cristo como o Messias prometido[5]; todos são elementos que colaboram ao propósito de João de apresentar Jesus Cristo como o Deus encarnado. Entretanto, uma característica notável que serve por destacar o conteúdo ainda mais dos sinóticos é o fato de em inúmeras vezes apresentar uma escatologia realizada[6]. É em João que vemos o registro das palavras de Jesus sobre “Aquele que ouve as minhas palavras e crê naquele que me enviou tem a vida eterna...” (5:24).

João também registra a ida de Jesus a Judéia pelo menos 3 vezes, dando ênfase a estes momentos, diferente dos sinóticos que apresentam o ministério de Jesus em grande parte sendo exercido no norte da Palestina (Galiléia). George Ladd salienta uma suposta distinção existente entre o Reino de Deus e a vida eterna, se comparados a utilização dos sinóticos e João[7], mas não há nenhuma evidência para identificar tantas diferenças semânticas com relação a este aspecto, como argumenta Ladd.

São características específicas, porém é possível identificar muitas semelhanças e sua complementaridade. A própria ausência de informações que são identificadas nos sinóticos pode possuir relação com essa característica. Entretanto, alguns eventos são ratificados por João, que já haviam sido mencionados nos sinóticos[8]: O evento do batismo de Jesus; a característica singular do batismo que é fornecido por Jesus – sendo o que batiza com o Espírito, em detrimento de João Batista que apenas batiza com água; o caminhar sobre o mar e outros aspectos que poderiam ser relatados. Como bem afirma Carson, não é possível ver claramente uma correspondência literária, mas é fato que fornecem informações parcialmente paralelas.

A preciosidade de João é vista em seu rico conteúdo, onde pelo olhar de um discípulo mais chegado, é possível conhecer informações imprescindíveis que corroboram ao desenrolar da história da progressividade da revelação bíblica. Não seria possível ter a completude das Escrituras hoje, sem as informações contidas neste livro. A Cristologia exibida nos sinóticos é complementada de maneira definitiva, na evidenciação da essência divino-humana de Jesus, que é um dos elementos fundamentais deste livro. Alguém que possuísse dúvidas a respeito de Jesus Cristo, sua missão, e sua natureza, teria suas dúvidas elucidadas pelas informações nos sinóticos e também pelo Evangelho de João. Desta forma, o evangelho de João se relaciona com os sinóticos, ratificando seu conteúdo, mas fornece uma preciosa contribuição em seu caráter único, fazendo com que mais dos ensinos e eventos autênticos a respeito de Jesus sejam conhecidos.




REFERÊNCIAS BÍBLIOGRÁFICAS:

BULTMANN, Rudolph. The History of the Sinoptics Tradition. Oxford: Basil Blackwell, 1972.

CARSON, D.A. MOO, Douglas J. MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

CHAMPLIN, R.N O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. São Paulo: Hagnos. V 5.

Duvall & Hays, J. Scott & J. Daniel. Grasping God's Word: A Hands-On Approach to Reading, Interpreting and Applying the Bible. 2nd ed. Grand Rapids: Zondervan, 2005.

GUNDRY, Robert H. Panor              ama do Novo Testamento. Vida Nova: São Paulo.

LADD, George Eldon. A Theology of New Testament. Grand Rapids: WB Eerdmans Publishing, 1993.

PINTO, Carlos Osvaldo. Foco e Desenvolvimento no Novo Testamento. Hagnos: São Paulo. 2008

MORRIS, Leon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2008.



[1] Cf. BULTMANN, Rudolph. The History of the Sinoptics Tradition. Oxford: Basil Blackwell, 1972.
[2] Cf. PINTO, Foco e Desenvolvimento no Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008.
[3] Embora diversos argumentos já tenham sido lançados, sobretudo, a não menção da destruição do templo judaico (70), tem feito com que alguns estudiosos recuem esta data para entre 65-70, mas conforme bem argumentam Carson, Moo e Morris, é provável que a sutileza de João em seus escritos possa responder a essa descrição como algo que já estivesse aceito na mente dos judeus. Cf CARSON, D.A. MOO, Douglas J. MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. P 190-191.
[4] Idem. P 184.
[5] PINTO. P 154.
[6] Idem.
[7] LADD, George Eldon. A Theology of New Testament. Grand Rapids: WB Eerdmans Publishing, 1993. P 259
[8] Cf CARSON, D.A. MOO, Douglas J. MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. P 182.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Você ama a Cristo?

“Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me?” (João 21:17a)

V
ocê ama a Cristo?Essa é a pergunta mais prontamente respondida por todo e qualquer cristão. Fiz a pergunta para o grupo de jovens que temos em nossa igreja. As respostas foram categóricas: “É claro que amo!”. Rapidamente me lembrei de uma estratégia do Pr. Francis Chan e os pedi para fazer um desafio aos seus líderes – um casal que se uniu em matrimônio há aproximadamente 7 anos. Os instiguei a elaborarem perguntas ao homem, sobre a forma em que evidenciava seu amor por sua esposa. Saíram coisas do tipo:Como você se sente quando está com ela? Até onde iria por ela? Morreria por ela? É comprometido até no Facebook? Ela tem acesso às suas coisas mais secretas? Pensa nela o dia todo?” Demos boas risadas e mesmo diante da tendência de que algumas perguntas soassem constrangedoras, o casal permaneceu descontraído, evidenciando que o dever de casa dos “entendidos” do amor havia sido feito.
Ao concluir esta fase, perguntei novamente: Vocês amam a Cristo? Mesmo com um número reduzido de convicções neste momento, a resposta ainda foi forte: Sim! Então lhes disse que tinha algumas perguntas para lhes fazer. E aproveitei para improvisar aquelas que haviam acabado de ser criadas por eles: “Como você se sente quando está com Cristo? Aliás, vocês têm andado em sua presença ultimamente? Até onde iria por Cristo? Vocês morreriam por Cristo? Estão comprometidos com Cristo até no facebook (expliquei: seus facebooks revelam muito se amam a Cristo ou não)? Vocês confessam a Cristo suas coisas mais secretas? Pensam nele o dia todo? A esta altura entenderam que poucos ali poderiam sustentar suas afirmações sobre a validade de seu amor por Cristo.
Pensando nisso, refleti um pouco sobre como nossas atitudes revelam o que nos move ou a quem amamos. Apenas dizer que amamos não torna isso verdadeiro. Nenhum casal acredita em um “amor” constituído de constantes demonstrações de infidelidade, há de se demonstrar que esse amor é real por meio de ações. Da mesma forma, amar a Cristo vindica comportamento compatível.
Imagino o que significou para Pedro as palavras de Jesus. Logo após a refeição, Jesus veio com essa sobremesa amarga para o discípulo. Era um momento muito difícil para Pedro. Depois de dizer de maneira audível a todos que jamais negaria o mestre, ao ver sua vida em risco, por três vezes se esquivou do desafio de assumir que era um discípulo do Senhor. Pedro negou a maior honra que lhe havia sido concedida na sua vida e demonstrou, naquele momento, que não amava tanto a Cristo como a si mesmo.
Nada mais difícil poderia ser perguntado pelo mestre em seu primeiro encontro com Pedro depois daquele episódio. Tanto a pergunta como a forma (3x) parecem ser propositais e pedagógicas. O amor de Pedro havia sido testado e sabia que não tinha sido aprovado. No lugar de Pedro, eu certamente pensaria: “O que responder sobre o amor que sinto para este que, além de saber de tudo, viu quando minhas atitudes demonstraram minha vergonha”. Entretanto, a audácia de Pedro muitas vezes me assusta. Eu não conseguiria dizer para o mestre o que ele de maneira corajosa disse. Talvez eu diria, “Senhor, não tenho me comportado como alguém que te ama, recentemente...”.Pedro, por sua vez, responde: Sim, Senhor! Tu sabes que te amo! Contudo, ouvir Jesus perguntar pela terceira vez a mesma coisa produziu nele a percepção inevitável de que suas palavras não possuíam tanto valor quanto suas atitudes.
Entendo que muitos de nossos comportamentos anulam nossas falas sobre o quanto “amamos” a Cristo. As atitudes falam mais alto sobre nosso amor que nossas palavras. Não poucas vezes observei a multidão de coisas que constavam em meu dia e as que sentia prazer em fazer, e como exemplificavam o quão distante estava meu coração de Cristo. Observo os ensinos bíblicos de pessoas como Enoque que foram caracterizadas por grande intimidade e um prazer em andar com Deus e penso que nossa geração está distante do amor a Cristo. Essas pessoas viviam pra Deus, suas agendas estavam ajustadas para Deus.
Esse quadro é bem diferente nos dias que vivemos. As pessoas vivem pra si, porque amam a si mesmas. Organizam seus dias para uma vida que traz satisfação apenas para si. E o resultado é uma triste confusão de valores: Uma multidão de vozes querendo ser ouvidas, quando apenas uma deveria ser; Uma multidão de pessoas querendo ser o centro, quando apenas um deveria ser; Pessoas que possuem uma página inteira, para falar apenas de si mesmas (Apenas a parte “boa”, é claro! Não me lembro de me deparar com alguém confessando seus pecados nessas páginas!). Isso parece distante das palavras de Jesus: “Aquele que quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Lc 9:23). Seria possível dizer que amamos a Cristo e viver diferente do que ordenam suas palavras? Afinal de contas, amigos somente são aqueles que fazem o que ele ordena. “Vós sereis meus amigos, se fizerem o que eu vos mando.” (Jo 15:14)
Pedro se sentiu fragilizado diante da frenagem de seu ímpeto aplicada por Jesus – com a repetição da pergunta. Mas, interessante é perceber que a tristeza da impotência de suas palavras manifestaria a certeza de que deveria se apegar à esperança de futura compatibilidade entre sua profissão de fé e seu comportamento. Uma nova oportunidade estava lhe sendo ofertada, uma nova chance não deveria ser descartada. É possível que a frase de Jesus “...apascenta minhas ovelhas” tenham soado como “vai, Pedro...viva então, a partir de agora, como alguém que realmente me ama, obedecendo as minhas palavras”. E assim, o desfecho da vida de Pedro demonstra que ele realmente se apegou as palavras de Cristo, lutou – dali pra frente – por amar e viver Cristo.
            Talvez as palavras de Cristo para nós hoje não sejam como as que foram direcionadas para Pedro, mas por certo elas vindicam mudança de comportamento. Minha oração é que assim como aconteceu com Pedro, possamos ser despertados para o amor de Cristo não apenas de palavras, mas de vida e verdade. Pedro entendeu que apenas por Cristo, sua vida poderia ser plenamente transformada para uma vida segundo a sua vontade – por isso ele estava ali mesmo diante de sua vergonha.
Que as palavras de Cristo nos tragam constrangimento, para que haja entendimento do quão distante estamos de viver o amor que ele deseja que vivamos, e  nos ajude a sermos finalmente quem nos chamou para ser!
Que ele tenha misericórdia de nós

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

When we need to justify ourselves we are far from regret (Sl 51)

Dear friends, I have reflected on some readings that I dedicated a little. In fact, here is the first advice: when we read, we vivify our intellect. But, of course, we need to underscore some things. Not all readings produce the results we usually expect. Some, in fact, lead us away from our goals. Our pleasure in reading reveals our desire to acquire what we do not have yet.
Well, as I know that many will not read more than the one mentioned until here, I kept the words that I really want to say from this moment, where an extra click is necessary. Readers are are distinguished by this, those who wish to click more, just to know the mysteries of information that requires more attention.
Analyzing this psalm and viewing its principles, in the face of what can be perceived, I noticed that David, when identified in his sin, did not hesitate to say: Father, I have sinned against you! Although he delayed his attitude, the king did not attempt to justify his actions. Perhaps he could have tried to establish it as a moment of weakness, or even blame a woman who was taking shower, when she would know that her balcony overlooked the palace of the great king. No! He said: Against Thee alone, Lord (vs 4).
I believe that the world has made a great effort to make us forget that all the sin we commit is, above all, against God. And why should we try to justify, when God knows our thoughts and knows that we can not deceive him? We live in a world where there are no more guilty. As Dr. John MacArthur says in his book The Vanishing Conscience, they are doing everything to nullify people's guilt, for without guilt, there is no sin.
The worst thing is to consent to this attitude, which in fact is the serpent's seed: Eve, it is not quite like this (paraphrasing, you will certainly not die ...). We must remember that the nature of Christianity consists in acknowledging ourselves as GUILTY. There is only regret when we identify this. However, only those who are touched by the Holy Spirit perceive this, the Master said: When he comes, he will convict the world of sin, and of righteousness, and of judgment (John 16: 8).
The current search is to cauterize the mind, annulling any guilt and justifying them as simple mistakes. And what to do with the prayer Jesus taught us, which should serve as the basis for our life with Him? And forgive us our debts ... debts? Which are? We do not have these things ... Woe to us, if we think this way! For although our sins bring no satisfaction to God, judging that we have overcome and said that we no longer sin is as wrong as not recognizing that God is light, and we are extremely dependent on Him!
We are still sinners, yes, the difference is that the Lord has planted in us the dissatisfaction with sin (IICo 7:10). We are not like "pigs in the pigsty" who rejoice in the mud. But, like "stubborn" sheep, we are taking steps to continue our journey. However, when confronted with a situation of sadness with sin, instead of smearing like a pig, we cry like a sheep. But thanks be to God that through the blood of Jesus we have been purified so that we may have fellowship with God and our brothers (1 John 1: 9).
When we seek to justify ourselves, seek pleasures, someone to support our cause, we call people to help us in our sin and we are far from repentance. But when we come before God and say, "Against Thee alone, Oh Lord! Wash me completely! The God who is great in Mercy (Num. 14:18), who forgives iniquity, accomplishes his work in us. And perhaps, if He pleases, He will please us in this service. Yet it certainly reminds us that what matters is that His name be glorified, not ours. "Not to us, O LORD, not to us, but to thy name give glory, for thy lovingkindness and thy truth." (Ps 115: 1)

Assentados à Mesa

"Sentaram-se diante dele, o primogênito segundo a sua primogenitura, e o menor segundo a sua menoridade; do que os homens se maravilhavam entre si". (Gn 43:33)
E
stava refletindo sobre como a Bíblia relaciona os momentos onde há intimidade e comunhão com o assentar à mesa. É possível que os mais jovens não estejam tão familiarizados com momentos como esse. Nossas casas estão cada vez menores e nossa disposição em passarmos juntos alguns instantes à mesa nem sempre é prioridade. Ainda me lembro desses momentos que tínhamos na casa de minha avó, quando reuníamos quase toda família de meus avós paternos aos domingos para comermos a carne assada com batata da Dona "Tinguinha". Vovó retornava da EBD procurando nos servir, já tendo adiantado a comida no dia anterior. Sentados à mesa e auxiliados pela sombra de um imenso "pé de Jamelão", só saíamos dali para o delicioso e sempre fresco descanso na rede. Esse era, sem dúvidas, um momento muito especial e dificilmente será esquecido de minha memória.
Tanto o Antigo Testamento quanto o Novo confirmam que o assentar à mesa era algo que designava profunda comunhão. O Evangelho de Lucas, por exemplo, reserva diversos momentos em sua narrativa para falar de banquetes que aconteciam (Lc 5,29-30; 7,36-50; 9,10-17; 14,1). Estes registros mostram que Jesus também participava dessas refeições em conjunto. O mais interessante é que na maioria das vezes ele estava com pessoas consideradas indignas, desprezíveis e pecadoras.
Quando reflito sobre isso, percebo como as páginas da Escritura Sagrada estão embebidas da mensagem do Evangelho e transmitem a todo tempo, mesmo em momentos como esse (onde pessoas se assentam à mesa), a relevância da consideração de sua mensagem para entendimento do ensino do texto.
Há uma história registrada no Antigo Testamento que considero muito especial para ensinar sobre isso. Ela fala de um período onde os filhos de Jacó estavam desejosos de terem algo à mesa para que pudessem comer, mas não podiam porque o mantimento que deveria ser posto ali estava em falta. Pai de muitos filhos, Jacó não sabia mais o que fazer e solicitou a seus filhos que fossem buscar comida no Egito, que era o único lugar onde havia fartura de alimento. Jacó não sabia que naquele lugar havia comida apenas porque José, a quem seus filhos haviam vendido, tinha sido instrumento de Deus para prosperidade que o Egito estava vivendo.
Ao chegarem no local pela primeira vez, depois de terem sido reconhecidos por José, ele os acusou de espiões - que intentavam fazer mal a Faraó. A estratégia visava conhecer um pouco mais do estado de sua família. Ao tomar conhecimento do bem estar de seu pai e de seu irmão Benjamim, decidiu reter a um dos irmãos (Simeão) e estabelecer que só voltaria a fornecer mantimento à família, e liberar seu irmão, caso retornassem com o irmão mais novo. Esse pedido tocava diretamente em um ponto muito sensível para a família, pois lembrava a todos uma tristeza muito profunda que havia se instaurada a partir da ausência de José.
O capítulo 42 de Gênesis termina demonstrando a relutância de Jacó em atender ao pedido do governador (seu filho José) de retornarem com Benjamim, fazendo com que deixassem Simeão por algum tempo naquele local. Apenas quando o mantimento acaba, Jacó se vê sem alternativas e permite, com profundo pesar, que seus filhos retornem. Preocupados com um acontecimento inusitado - o fato de terem recebido de volta o dinheiro em suas sacolas na primeira vez - os filhos de Jacó jamais imaginariam o que estava por acontecer a eles, em terras egípcias.
José, ao ver seus irmãos dá ordens de que eles fossem dirigidos à sua residência particular. Pensando que se tratava da cobrança do dinheiro indevido, os irmãos de José se apressaram em explicar ao mordomo o que havia acontecido e que estavam dispostos a restituir o dinheiro aparentemente recebido por engano. Mas, ao ouvir as palavras de paz do mordomo e receber novamente Simeão, perceberam que haviam sido presenteados com grande favor. As surpresas não pararam por aí, pois depois de terem lavados os seus pés - algo nobre realizado a pessoas que eram bem vindas em uma residência - ainda foram convocados a um célebre momento de banquete. As porções foram distribuídas a cada um como se alguém ali soubesse suas idades e por isso ficaram maravilhados - muito embora o irmão mais novo tenha recebido porção cinco vezes maior.
A última frase do último verso do capítulo 43 (verso 34) declara que a comunhão foi tanta que eles beberam e se regalaram com ele. A palavra shakar indica um momento de prazer e alegria profunda. Porém, até aqui eles sequer faziam ideia de quem os estava fazendo tão bem. José se revela apenas no capítulo 45, mas não há como não refletir sobre como essa alegria sentida pelos irmãos seria acrescida de outros sentimentos se realmente soubessem que ali estava alguém que haviam ofendido brutalmente.
Quando me perguntava sobre os muitos momentos em que José já poderia ter se identificado, esse era um em que eu pensaria ser apropriado. Talvez, esse seria oportuno para causar uma indigestão e fazer aqueles maus irmãos perceberem que ele não era do mesmo nível que eles. Que estava pagando mal com bem. Mas, a sabedoria de José me deixa pasmo. Ele permitiu e gozou de preciosos minutos com aqueles que nem sabiam o quão indignos eram diante daquele que lhes ofertava o banquete. Que misericórdia! Que graça!
Este quadro parece refletir perfeitamente aqueles publicanos e pecadores que assentados com Cristo Jesus, se maravilhavam e o ouviam alegremente - simplesmente por estarem diante de alguém tão importante, tão proeminente. É possível que muitos deles nem soubessem que a vinda dele a esse mundo se tratava da necessidade de receber, levar consigo e pagar por todas as ofensas que tanto aqueles sentados ali, como toda raça humana haviam realizado contra Deus. Quando analisadas as palavras do profeta Isaías, se torna claro que Jesus Cristo cumpre cabalmente seu propósito aqui nesta terra:
Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados (Is 53:4-5).
Fomos alcançados pela maravilhosa graça de Cristo Jesus, mas fico me perguntando quantas pessoas temos na igreja que talvez estejam ainda como os irmãos de José. Neste ponto, a eles ainda faltava o esclarecimento de que José era o benfeitor. A eles ainda faltava o senso e a percepção de que estavam recebendo benefício de quem haviam ofendido. É bem fácil confundir o recebimento de um favor que não merecemos com graça. Mas ela não chega nem perto. O pastor e amigo Rodrigo Suhett, por vezes, cita A.W. Pink para enfatizar acertadamente que graça é um favor não merecido sendo ofertado a ofensores.
Para entendermos o que é graça temos que lembrar das palavras de Jesus na ceia com seus discípulos. "Este é o meu corpo e o meu sangue que é partido/derramado por causa de vós". E assim entendermos o privilégio de que esta é a mesa que o mestre nos chamou a assentar. É desta mesa que diariamente deveríamos nos lembrar e nos alegrar. Esta comunhão que foi proporcionada, porque o Senhor não decidiu pagar o mal que nossos pecados fazem a ele com a sentença que merecíamos, mas Ele graciosamente decidiu ofertar o bem que tanto precisávamos para que estivéssemos diante de sua presença e compreendêssemos que seu nome é manifesto de maneira gloriosa e inigualável. Que Cristo sempre nos ajude e nos encaminhe ao entendimento do Evangelho.
A Ele toda honra e toda glória!

segunda-feira, 27 de março de 2017

Oh, Homem Perdido... OIhe pra teu Senhor!!!

E chamou o SENHOR Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?
Genesis 3:9
A indignidade de um homem não é identificada por ele quando seus olhos estão cheios de si, de suas razões. Ele busca se justificar em todos seus atos, mas na verdade tanto os atos como suas justificativas são ofensivas a Deus. Sua vida é uma ofensa ao Deus que o criou. Porque busca viver conforme suas próprias paixões, acredita ser inadmissível que Deus possa não ter planejado uma vida pra ele conforme seus próprios desejos.
Ah, homem! Como estás enganado! Estás enganado primeiramente por achar que quando vives desta maneira estás vivendo! Se procuras agradar a ti, constituis a ti mesmo como senhor e se és senhor como poderás administrar sua própria vida na qual não tens a mínima autoridade de acrescentar um segundo. Que tolo tu és! Como podes pensar que a podes dominar se claramente ela é controlada por outro? Quando vais amadurecer? Quando vais entender? Seria bom que, algum dia, entendesses! Parece que por vezes consegues alcançar o conhecimento...Mas pouco tempo se passa e demonstras novamente tua insensatez...
Ah homem!! Como estás enganado! Estás enganado em desviar o foco daquilo o que é revelado a tua alma! Que és escravo! Que nasceste assim e jamais deixarás de ser e não há possibilidade de seres livre, sobretudo, nessa liberdade que buscas por ti mesmo. Não entendes que tua escravidão foi dada para tua própria alegria? Sim, ela lhe foi dada como um presente, porque não sabes ser livre! Tu não sabes viver por ti! Tu te perdeste há muito tempo e jamais encontrarás o caminho de volta por ti mesmo. Só sabes que estás perdido, mas nem mesmo o quanto estás!
Arrepende-te e talvez haja esperança. Talvez teu verdadeiro Senhor te acolha... Arrepende-te! Só Ele sabe o quão perdido estás e sabe ainda como te trazer de volta. Como um pai chama seu filho – e mesmo sabendo que a correção se aproxima, entende: “Meu pai me chama!”. Pode e será doloroso, você fugiu e precisa ser corrigido por tua fuga... É o que deves esperar! Mas, aos cuidados de teu Senhor até mesmo a dor e o sofrimento possuem propósito! Não é como aquela vida vazia que declaras ser uma vida.
Teus ossos estão ruindo, tua pele escamando! Tua sujeira está afastando o favor! Estás perdendo tua cor! Estás magro! Estás só! Não percebes, porque embora busques sempre olhar para tuas próprias necessidades não consegues olhar pra o que realmente precisas. Precisas olhar para tua vergonha! Arrepende-te!
Ah homem!!! Como estás enganado! Estás enganado em achar que existe alguém que saiba mais a teu respeito que teu verdadeiro Senhor, Aquele que te criou! Acreditas que conseguirias perambular pelo mundo a fora sem que teu Senhor sondasse teus passos, mesmo nos caminhos mais tenebrosos? Pensas que ainda terias um caminho se Ele não te desse os pés? Mas, é momento de perceber que teu corpo clama por descanso. Pare de levá-lo para longe! Use os teus ouvidos e não te deixe mais enganar! Ouça a voz de teu Senhor, que te busca, que te chama, que te ama, que veio te corrigir, que deseja te limpar, que deseja te conduzir, que deseja te usar...Arrepende-te!
Ah homem!!!! Como é bom que compreendas a grandeza de teu Senhor que também te deu de presente a dor, pra que finalmente pudesses contemplar que tua insensatez não frustraria tua história. Pois por meio dessa dor te traria as marcas que consolidariam tuas estigmas. Uma marca que durará para sempre, pra que nunca haja confusão entre o caminho que buscou para ti mesmo e o caminho que Ele estabeleceu para ti desde o princípio. Não hesite em mostrá-la para outros, pra que não sejam como tu nos dias de tua insensatez! Agradeça!
Agradeça, porque o teu Senhor te livra de ti mesmo!
Olhe...
Caminhe...
Sabes o que deves fazer...
Agora sabes o que precisa...
Vai...
Não volte mais atrás...
Deixa...

Ele vale mais que tudo...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Fugir: Mandamento ou Consequência?

Quanto mais estudamos a Bíblia mais percebemos o quanto seus ensinos se mostram singulares. Alguém certa vez disse: “Tire a Bíblia da face da terra e o padrão de certo ou errado estariam comprometidos”[1], consequentemente, isso se refere a sua potencialidade como palavra advinda do próprio Deus. Essa característica coloca a Bíblia acima dos livros ordinários (comuns), pois como já disse em outros posts, ela tem status de Escritura Sagrada por sua inspiração e inerrância e é definitivamente Palavra de Deus. Não trabalharei por defendê-la contra os que não concordam com minha forma de enxergá-la, até porque ela mesmo ensina que alguns estão cegos para a preciosidade de seu conteúdo.
            Meu propósito é apontar sua singularidade por meio da observação de algumas palavras. Na verdade, em português, se trata apenas de um verbo, fugir. Essa palavra é curiosa! Ela é usada de várias maneiras, e algumas de formas mais comuns. Normalmente, associamos a fuga ao resultado de alguma derrota, medo, ou perigo. Ao mesmo tempo, podemos perceber que é comum seu uso como orientações tanto ao que se deva fazer quanto para o que não deve ser feito. Há uma vastidão em seu uso e os dicionários normalmente atribuem níveis de significado que se relacionam entre si: 1) livrar-se de perseguição; 2) salvar-se de perigo; 3) evitar (algo indesejável, desagradável), esquivar-se.
            Na Escritura Sagrada podemos encontrar essa palavra por mais de duzentas vezes, sendo que o maior número ocorre no Antigo Testamento (cerca de 195x). No Novo Testamento, quem mais utiliza a palavra é o apóstolo Paulo (I Co 6:18; 10:14; I Tm 6:11; II Tm 2:22), e me parece que, por seu uso, podemos entender que essa é uma palavra importante para prescrição de uma vida bem sucedida diante de Deus.
Embora façamos menção à frente sobre alguns dos ensinos do apóstolo nos versículos citados, gostaria de refletir sobre dois eventos no Antigo Testamento onde a palavra fugir aparece. São duas fugas de dois homens de Deus. Diante de momentos decisivos, esses homens tomam rumos diferentes. Os dois personagens são conhecidos: José e Jonas. Os versículos onde as palavras aparecem são mostrados abaixo:
“Então ela, pegando-o pela capa, lhe disse: Deita-te comigo! Mas ele, deixando a capa na mão dela, fugiu, escapando para fora”. (Gn 39:12)
            “Jonas, porém, levantou-se para fugir da presença do Senhor para Társis. E, descendo a Jope, achou um navio que ia para Társis; pagou, pois, a sua passagem, e desceu para dentro dele, para ir com eles para Társis, da presença do Senhor”. (Jn 1:3a)
            Estes textos apresentam dois usos da palavra fugir. Em Hebraico são duas palavras diferentes: nûs, a primeira; bârach, a segunda. As palavras trazem significados muito aproximados às definições que já apresentamos até aqui, acrescentando apenas à segunda uma particularidade pelo modo verbal que aponta para algo que é feito de maneira repentina ou inesperada. É interessante que, apesar de aparentemente ser antagônica a comparação de alguém que foge do pecado com alguém que foge em desobediência (pecando), essas histórias mostram que as duas fugas proporcionam seus ensinos quando entendemos que Deus é a referência que o autor deseja que tenhamos em mente.
            José, após ter sido vendido como escravo para Potifar, estava prosperando de maneira que até seu senhor percebia que Deus estava com ele (Gn 39:3), mas o próprio José parece demonstrar com seus atos a certeza de que o que acontecia em sua vida não estava desconectado da vontade de Deus e que em tudo, Ele o observava. Poderíamos entender que é isso que o leva a fugir do que, segundo suas próprias palavras, seria um “grande mal”, seria “pecar contra Deus” (Gn 39:9). Deus é quem José tem em mente para evitar se enveredar por caminhos que manchariam seu caráter, que o distanciaria do homem que havia sonhado que seria.
            Olhando para a outra história, temos uma ideia do porquê de o verbo fugir se apresentar como algo repentino. As palavras que antecedem a fuga de Jonas são imperativas da parte de Deus e o convocam a caminhar em outra direção. A ordem não descrevia Társis como destino, e sim Nínive. Mas, subitamente, vemos o profeta de Deus tomando uma direção inesperada. O verbo é empregado pra caracterizar a tomada de uma direção que não estava em conformidade com o que era atribuição de um profeta. Qualquer que observe as prerrogativas do ofício profético sabe que o que Jonas faz é uma contravenção ao próprio ofício, que preconizava a obediência acima de qualquer convenção. O atender às determinações do Senhor era levado sempre a sério por esses homens, porque sabiam que um deslize poderia significar grave punição. Alguns profetas tiveram suas vidas transformadas em algo que quase nunca era satisfatório em decorrência de terem sido escolhidos por Deus para missões árduas, mas nem por isso a desobediência era uma opção.
            É no mínimo assustador ver um profeta com tamanha “audácia”, como Jonas, de desviar-se de fazer a vontade de Deus para fugir de sua presença. Poderíamos confabular várias justificativas para a fuga de Jonas, mas nem precisamos fazer, porque o livro se encarrega de nos fornecer que ele estava preocupado com o bem estar de sua nação, pois os ninivitas eram rivais de Israel. Seu pensamento pode ser traduzido nas seguintes palavras: “Conhecendo que Deus é grande em misericórdia, não quero que esse povo (moradores de Nínive) receba a oportunidade de, se arrependendo, serem libertos por Deus”. De certa forma, alguns têm enxergado Jonas como um tipo de libertador. Alguém que coloca sua vida em risco diante de Yahweh para que o povo seja salvo, pois a não anunciação da mensagem traria continuidade aos planos divinos de destruição da cidade, sem a oportunidade de arrependimento.
            A mensagem de Jonas traz a lume os propósitos redentivos do Senhor. Estes não se restringem à nação de Israel, mas a todos aos quais estende a Sua graça. Mas, a observação sobre a fuga de Jonas permanece e aprendemos que a tentativa independente de encontrar escape distante de Deus não conduz o homem à prosperidade ou a libertação de seus dilemas.
            Quando estendemos a comparação novamente dos textos e avançamos para percepção dos resultados, obtemos grandes ensinos. Por causa da manutenção de seu caráter obediente a Deus, a fuga de José produz resultados aparentemente catastróficos. Ele é lançado em uma prisão no Egito, lugar onde normalmente as pessoas estavam expostas à morte ou ao esquecimento. Contudo, a história toma um rumo em que José é levado ao mais alto lugar no reino egípcio, sendo constituído governador do Egito, estando abaixo apenas de Faraó, depois de revelar um sonho que o afligia. Parece que para José, fugir, o conduziu ao exato lugar de onde Deus efetivamente realizaria o completar de Seus desígnios para a vida do jovem filho de Israel.
            Na vida de Jonas, percebemos algo diferente. Se sua fuga intrinsecamente revelava até boas intenções para com os seus irmãos, as consequências da desobediência não materializaram suas ações como benéficas a Deus e impactaram seu estado. A prova disso pode ser encontrada por todo segundo capítulo do livro. Sua fuga lhe produziu angústia (Jn 2:2), intranquilidade (2:3), vergonha (2:3) e o pior dos resultados com o qual um homem pode ser confrontado, o afastamento de Deus (2:5-7).
            Ao relacionar estes dois personagens, reproduzimos imagens diferentes para os dois em todo processo de fuga e resultados: José poderia ser descrito de cabeça erguida, enquanto Jonas, escondido e de cabeça baixa. Cada qual colhe o fruto de suas ações. Notamos assim, um paradoxo na utilização de uma mesma palavra. Em José, quando confrontado com o que desagrada a Deus, fugir é utilizado como imperativo que produz bom resultado. Enquanto que em Jonas, sua fuga é oposta à determinação dada pela palavra de Deus. Isso produz péssimos resultados.
            É possível enxergar que, desde o Éden, o homem tem sido confrontado com o paradoxo da fuga. Adão recebeu de Deus o imperativo de fugir do pensamento de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, mas porque seguiu caminho oposto, descobriu à duras penas que quando não nos esforçamos para uma fuga em obediência a Deus sempre produzimos como resultado a fuga da desobediência. Sendo assim, quando o imperativo fugir não foi recebido por obediência ele foi produzido como consequência. Foi essa a decisão de Adão ao se deparar com seu estado deplorável pós- queda. Ele ainda sentiu o agravo quando foi confrontado com o conhecimento de que uma dessas fugas é impossível, pois ninguém jamais conseguiria se ocultar da presença do Senhor, que tudo vê.
            Quando identificamos a importância de considerar esse aspecto como um mandamento, mencionamos as orientações de Paulo sobre o imperativo. Temos o dever de fugir da aparência do mal... (I Ts 5:22), da prostituição, dos ídolos, da ganância (I Tm 6:11), das paixões da mocidade. Todas estas admoestações enfatizam a necessidade de cuidar para não sucumbir às tentações. Nossa vida é dotada de imperativos e muitos deles estão ligados ao fato de que devemos fugir daquilo o que desagrada a Deus. Todavia, devemos estar atentos à realidade que de uma forma ou de outra estamos empregando o verbo em nosso cotidiano. Se fugimos daquilo o que desagrada a Deus nos aproximamos do desfrute de suas promessas, mas se fugimos de sua presença por meio do abraçar de nossas próprias convicções, do amor aos nossos prazeres, da desobediência, sabemos que a angústia, a intranquilidade, a vergonha e o consequente afastamento de nosso Senhor serão nossos tormentos.
            A Bíblia afirma que, por Cristo Jesus, os crentes foram chamados para a obediência (Rm 1:5) e por meio da obediência à Palavra de Deus estamos sendo habilitados para as boas obras (II Tm 3:17). De certa forma, isso também pode ser visto nas decisões que tomamos em nossas vidas. Uma coisa precisamos ter certeza, Deus está atento aos nossos passos. É inevitável que se andarmos por caminhos que desagradam a Deus, teremos como consequência a fuga da vergonha, mas se clamarmos por misericórdia e nos fortalecermos no Espírito de Cristo, Deus pode fazer com que nossos caminhos, ainda que em meio ao sofrimento, convirjam para a concretização de Seus belos planos. O que faremos? Pra onde fugiremos?
Que o Senhor tenha misericórdia de nós!
Pr. Jonatas Bento.



[1] Faço essa citação em um livro que escrevi em parceria com um amigo. ARAÚJO, Ilton Sampaio de; BENTO, Jonatas. A Razão da Nossa Fé. CP Douloi: Rio de Janeiro, 2014.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Há esperança para os dias difíceis....

Jó 14 -  14. Morrendo o homem, acaso tornará a viver? Todos os dias da minha vida esperaria eu, até que viesse a minha mudança. 15. Chamar-me-ias, e eu te responderia; almejarias a obra de tuas mãos. 16. Então contarias os meus passos; não estarias a vigiar sobre o meu pecado; 17. a minha transgressão estaria selada num saco, e ocultarias a minha iniqüidade.

Esse é um dos momentos de maior crise na vida de Jó. Ele já havia enfrentado situações que o deixaram em estado calamitoso: morte de seus familiares, perda de seus bens, sua saúde havia sido afetada e de uma maneira inexplicável não conseguia sentir paz. Suas palavras são realmente desesperançosas. Logo no início do capítulo, elas mostram a exiguidade das coisas criadas e ainda atenua a diferença dos seres humanos para a natureza em si, enfatizando sua percepção de que ambos serão consumidos ao seu tempo, mas apontando seu desconhecimento sobre o futuro dos homens. Uma árvore, por exemplo, até depois de ser ferida poderia encontrar alento e renovo caso houver proximidade de águas,  "o homem, porém, morre e se desfaz; sim, rende o homem o espírito, e então onde está?" (Vs. 10).
Jó está em um dilema com o qual muitas vezes nos deparamos, a incerteza da vida. E embora esteja convicto da mão de Deus sobre toda criação, ainda não tem clarificado em sua mente, o porquê da existência dos homens. Ele ainda passaria por uma bateria de acusações de seus amigos até que Deus atentasse para responder-lhe sobre seus dilemas. 
Interessantemente, como resposta para todos os questionamentos de Jó, Deus se utiliza de perguntas que levam Jó ao entendimento de sua limitação para compreender coisas que para Deus poderiam ser classificadas como elementares. Quanto mais avança no processo de emissão de questionamentos mais intensa se torna a vergonha de Jó, que procura fazer intervenção enfocando sua miséria (40:3-5). O Senhor, contudo, mais uma vez lhe concede uma série de indagações finais e lhe mostra que, em nada, tem obrigação de esclarecer suas vontades e desígnios a sua criação, pois pertence a Ele.
É no mínimo intrigante perceber que a resposta de Deus não atenta para o principal questionamento de Jó: "Por que estou padecendo isso?". Mesmo assim, Jó começa a entender que Deus não está inerte a nada que ocorre em sua criação, tudo faz parte de Seu plano e está dentro de Seu controle Soberano. 
Ao observarmos o trecho selecionado, percebemos certa ironia da parte de Jó em dizer, que se houvesse alguma esperança para o homem ela estaria apenas em que ele "nascesse denovo". O questionamento sobre um novo nascimento, inevitavelmente, nos conduz ao diálogo entre Cristo e Nicodemus e assim, talvez não seria um equívoco perceber que a frase "morrendo o homem, tornaria a viver?" (vs14) é muito semelhante ao questionamento de Nicodemus "Como pode um homem nascer denovo sendo velho, porventura pode tornar a entrar na madre de sua mãe?" (Jo 3:4) Nosso conhecimento do desfecho do diálogo entre Jesus e Nicodemus nos mostra a conexão não apenas com o dilema de Nicodemus ou do próprio Jó, mas com o de toda humanidade caída, que em decorrência do pecado está sentenciada ao esquecimento.
De certa forma, não poderemos compreender o ensino do livro de Jó apenas com seu conteúdo literário, mas como a maioria dos estudiosos conservadores tem declarado, precisamos da Bíblia para compreendê-la melhor. E se estamos certos em enxergar ligação entre esses textos, vemos que apenas Deus possui a resposta que precisamos – ainda que não consigamos entendê-la. Todavia, misericordioso que é, nos fez conhecer que na pessoa de Cristo é possível se refugiar dos dilemas que nos assolam; que apenas em Cristo há solução para o terrível esquecimento provocado pela morte; apenas por Cristo é possível sermos resgatados de uma vida que aponta para a falência para uma nova vida em Deus. Nossos pecados nos distanciam de Deus e a única possibilidade de que isso não nos traga a justa punição chama-se graça de Cristo Jesus.
Jó vislumbrou em seus dias que Deus está no controle do que lhe era impossível controlar. Jesus Cristo tornou claro aos homens que esse controle perpassa o ordinário e adentra o extraordinário, um novo nascimento, uma vida após a morte, quando tudo parecia estar perdido... 

Que Deus é este?! Que Cristo é esse?! O mesmo ontem, hoje e eternamente. Amém!